quarta-feira, 22 de março de 2017

|| És-me poesia

Ah Céline, Céline... How does a moment last forever?
Eu sei.
É no beijo dele, no entrelaçar das nossas mãos, no cruzar do nosso olhar.
É no riso de uma piada parva ou de uma lembrança terna.
É no suspiro apaixonado do "ai rapariga se eu não gostasse tanto de ti..." de cada vez que eu tento meter-lhe nojo.
É na palmada no rabo que eu lhe dou sempre que ele se levanta ou se senta ao meu lado e na palmada na perna que ele me dá de cada vez que vamos juntos no carro.
É no abraço apertado que quase me estrafega toda e que só ele me sabe dar.
É no meu encostar de cabeça no ombro dele.
É na festinha com o dedo que ele me faz no rosto e eu nos lábios dele.
É no beijo no rosto que lhe dou devagarinho sempre que acordo a meio da noite e no braço com que ele me protege sempre que me mexo ao dormir.

Pudesse eu parar o tempo nesses momentos... e perpetuava-nos para sempre.

Se me pedissem para te definir numa só palavra, eu diria que és poesia.
É em ti que escrevo as minhas melhores prosas, que gravo os diálogos mais maravilhosos e soletro as rimas de um amor maior que não me cabe no coração que trago na boca.
É contigo que se frustra todo um dicionário de língua portuguesa e que se dá sentido aos gestos de uma linguagem que deveria ser universal.

És a poesia dos meus versos soltos, do meu conto de fadas, a poesia onde choro os fados que a vida às vezes me canta.
És a poesia dos meus sonhos, das histórias do "viveram felizes para sempre...", és a poesia que invento todos os dias da nossa vida para te fazer feliz.
És a poesia que trago junto ao peito, a poesia que me faz querer tirar os pés do chão e dançar, a poesia que me transporta para os dias lindos que tivemos e alimenta a alegria dos dias que ainda estão por vir.

Até nos nossos momentos maus, aqueles que nos põem à prova e nos mostram que até um amor forte tem as suas vírgulas, és a poesia onde Deus escreve nas minhas linhas tortas.
E quando a minha inspiração se dilui no lago dos meus medos onde, tantas vezes, mergulho de cabeça, vens tu, poesia inteira do meu coração, devolver o ar aos meus sonhos e citar-me os versos de quem sou.

És a poesia que me desperta dos meus sonhos maus, que me destrói as barreiras teimosas, que me prova a diferença entre a verdade e a mentira e que me ampara sempre nas quedas livres.
És a poesia do sol de cada dia novo que nasce e das estrelas que a noite traz para enaltecer o céu escuro, és a poesia que me inspira todos os dias, a poesia que me instiga sem limites e que me desamarra os medos.
És a poesia de um rio que me leva até ao mar, a poesia que pinta a minha primavera deixando-a sempre em flor, a poesia das minhas melodias que ainda estão por inventar.
És a poesia da minha história com um final feliz.

Por mais dias, semanas, meses ou anos que passem, que as minhas linhas sejam sempre suficientes onde possas ser tudo e mais um pouco, inclusive feliz.

E como é que uma história nunca acaba?
Quando a poesia de dois corações se transforma numa música capaz de os fazer ficar, mesmo quando tiverem todas as razões para partirem.

Que a nossa história seja assim, poesia de um amor bonito e puro, para sempre.




terça-feira, 14 de março de 2017

Fala sério || Antes dos meus filhos estou eu

Eu nunca fui muito de falar sobre figuras públicas por aqui, não por algum motivo em especial, simplesmente ainda não tinha surgido oportunidade. Mas hoje inicio a rubrica "Fala Sério" trazendo o nome do Gustavo Santos à baila.
Toda a gente conhece o Gustavo Santos, uns adoram-no, outros odeiam-no, a vida não está para agradar a gregos e a troianos. Pessoalmente, gosto imenso do Gustavo, ele é dos meus, diz as coisas com a maior naturalidade e frontalidade do mundo, e o melhor de tudo é que só come quem quer.
Hoje, ao passar os olhos pelo meu feed do Facebook, deparo-me com uma pequena entrevista (aqui) do Gustavo onde ele fala sobre a paternidade e onde diz umas coisas bastante certeiras (escandalosas na visão de muitos) sobre o ser-se mãe. Claro está que tive que espreitar os comentários porque eu já sabia que as indignadas iriam soltar a franga, e não me enganei.

A dada altura o Gustavo diz algo como "Foi o meu cão que me ensinou a ser pai."
Duas aluadas soltaram logo a sua franga irrequieta. Um cão a ensinar a ser pai? Essa agora! Os cães têm quatro patas, nascem com os olhos fechados, babam-se e cheiram mal da boca, não falam e têm uma inteligência do tamanho de uma ervilha! Como é que alguém pode achar-se pai de uma criatura deste tipo? Jamais!
Não sei porque é que por cá não se faz a mesma coisa que os chinocas fazem aos cães lá no pardieiro deles! Era ver muita gentinha a correr para os restaurantes à procura de sushi de cão para experimentar.
O Sr. Marcelo que reformule a lei de que os animais são seres com sentimentos, tal como os seres humanos. Andamos todos equivocados. Deus me livre ser equiparada a um cão!

Mas a melhor parte nem foi esta, a melhor parte, para mim, foi quando o (grande) Gustavo Santos disse "O filho jamais poderá ser a coisa mais importante da vida de uma mãe.
Uuiii, o que foi ele dizer...
De várias frangas (desfrangalhadas), houve uma que me saltou à vista quando iniciou a destilação da sua estupidez crónica com a boca do "ai o cão é que te ensinou a ser pai, ó valha-me deus...". A partir desse comentário foi um desfrangalhanço do caroço, ao ponto da Sra. dizer que "isto de humanizar animais e animalizar pessoas é fabuloso". 
Será que a Sra. é Jeová? Fiquei com essa impressão.
Mas depois de ler mais uns quantos comentários dela percebi, nitidamente, que é só estúpida e deve achar que na árvore genealógica da vida o homem é um ser celestial e que não pode ser igualado a animal nenhum (fico a pensar que os meus ossos podem ser pedaços de céu e as minhas mamas de tão fofas que são, ao invés de chicha, são duas nuvens que Deus me deu).

Ai Gustavo Gustavo... És um incompreendido. Mas se um dia, porventura, te deparares aqui com o meu pardieirozito e leres isto, quero que saibas que, não só te entendo, como subscrevo o que disseste.
Eu tenho dois filhos lindos, maravilhosos, cheios de saúde, e sou muito grata à vida por ser a mãe deles. Mas eles não são a coisa mais importante da minha vida.
Eles são importantes sim, na medida em que sou a mãe deles e é da minha responsabilidade amá-los, educa-los, prepara-los para o mundo, incentiva-los a fazerem a diferença e deixarem a sua marca, os meus filhos são pedaços de mim que serão perpetuados no tempo e o meu objetivo é que eles sejam a extensão do melhor de mim.
Os filhos são pérolas preciosas na vida de qualquer mãe, mas não são pérolas para usar no pescoço. Os filhos são a sementeira do amor no mundo, porque a verdade é esta: os filhos não são nossos, são do (e para o) mundo.

Um filho que seja a coisa mais importante da vida da sua mãe é um filho perdido, é um ser condenado aos caprichos, vontades e desejos de uma mulher sem amor próprio que se esqueceu (ou nem existiu!) de si, que o diga o meu ex-marido.
"Homens e mulheres há muitos, os filhos ficam para sempre", foi outro dos comentários que mais li sobre a entrevista do Gustavo. Quem dera às mães que perderam os seus filhos que assim fosse... Filhos são para sempre, mas isso não implica que fiquem para sempre do nosso lado.

Amar não equivale possuir.
Eu não sou dona dos meus filhos. Sou responsável sim por lhes mostrar caminhos possíveis, mas a escolha será sempre deles, porque a minha limitação permite-me aceitar que eu não controlo tudo.
Um dia eu sei que eles vão seguir caminho, vão desbravar sonhos, vão conquistar o seu lugar no mundo, e eu… eu serei a mesma mulher, cheia de vida e com sonhos na algibeira, com um coração cheio e braços abertos para os acolher sempre que eles precisarem de pousar, sempre que eles precisarem de que eu lhes aguce a memória e os relembre que há um mundo à espera do amor deles, o mesmo amor com que foram feitos.

Quantos divórcios, quantas mágoas, quantos traumas, quantas chatices não seriam evitadas se as mães parassem de desistir de viver para verem o mundo pelos olhos dos filhos. É como se com o nascer de um filho a vida se reduzisse a um tamanho somente visível por uns binóculos, como se um filho nascesse com a sentença registada de ter de alimentar o sentido da existência da sua mãe.

Viver para (e pelos) filhos dá sempre merda, não importa o prazo.
Quantos filhos ficaram parados, presos no tempo porque as mães não os deixaram experimentar, não os deixaram voar, testar os seus próprios limites. 
Quantos filhos não cresceram para lá dos horizontes das suas mães.
Quantos filhos limitados e dependentes de um amor materno andam por aí a cobrar esse mesmo amor (obsessivo) às suas namoradas e esposas. 

Antes dos meus filhos estou (e estarei sempre) eu porque se eu não estiver bem é impossível proporcionar bem-estar e equilíbrio aos meus filhos, é impossível fazê-los felizes se eu não for feliz também. Ninguém consegue dar o que não tem, basicamente, é como construir uma casa em cima de areia. 

Que Deus conserve aquilo que sou e me permita deixar ser tudo aquilo que os meus filhos quiserem ser, inclusive livres.



domingo, 5 de março de 2017

|| Coração na boca

Eu sei que não tens culpa dos invernos que outros me trouxeram, eu sei.
Eu sei que não tens culpa de me terem deixado em cacos, desfeita no chão, jogada às intempéries da dor, eu sei.
Sabias que até um vaso quebrado pode ser bonito? São aquelas fendas frágeis que expõem os tombos que deu e a graciosidade com que se colou, é aquela despadronização na pintura que comprova que vaso bom também quebra e, apesar de nunca mais se parecer igual ao que era, consegue se destacar dos outros vasos do mundo. São através daquelas fendas tão frágeis e ásperas, que o tempo não corrói, que a dor respira e dói menos.

São as minhas fendas que fazem de mim o vaso que vês.

Se quiseres, planta-me flores e cuida-me das ervas daninhas.
Faz-me tranças no cabelo e beija-me na testa, devagarinho.
Pega-me nas mãos e fala-me dos teus sonhos, em silêncio.
Promete-me que o amor é uma primavera em flor.  

Só não me digas que sou piegas, e que ter medo que te vás é coisa sem sentido.
Amar-te é o mais perfeito dos meus sentidos, não reduzas isso a nada porque me é tanto.

Pega-me nos medos e embala-os, devagar para não os assustar.
Abraça-me os soluços contidos e sussurra-lhes que vai ficar tudo bem.
Adormece a minha mágoa com ternura.

Só não me deixes calar, porque depois de ir posso não voltar.
Sentares-te e ouvires-me é a maior prova de amor que me podes dar.

Desenha-me estrelas com a ponta dos dedos.
Pinta-me um sorriso até às orelhas.
Dança e faz-me rodopiar até ao frio na barriga.
Diz que me amas debaixo da chuva.

E eu prometo-te as mãos unidas em qualquer precipício e um "amar-te por toda a minha vida" de um qualquer Jobim. 














domingo, 26 de fevereiro de 2017

|| Carnaval: big no!

Será que sou só eu que não acho piada nenhuma ao Carnaval? Bem, vale a pena só pela pausa nas aulas...



(imagem da net)


Lembro-me que em miúda eu gostava de sair com os outros miúdos da escola e desfilar mascarada pelas ruas lá da minha terrinha, era giro, era um dia diferente. Mas com o tempo, e à medida que fui crescendo, perdi o interesse na folia carnavalesca. 
Penso que o Carnaval em Portugal é uma brincadeira de crianças, comparado com o que existe no Brasil. E o mais parolo, é que os portugueses tentam copiar os brasileiros, como se temperaturas de 30 a 40º batessem as temperaturas gélidas que por cá se fazem sentir. Ver as moças semi nuas a sambarem debaixo de um frio do caroço é só ridículo. 
O problema do carnaval é que muita gente se aproveita (e se desculpa) para fazer mal aos outros com o cliché do "é carnaval ninguém leva a mal". Claro que levo a mal! 
Muita gente sai à rua só para meter nojo e fazer a vida negra aos outros com brincadeiras parvas que não lembram nem ao menino jesus, e é aí que o carnaval perde a graça que deveria ter.
Outra piada carnavalesca são as discotecas de Lisboa. Ontem saí para dançar e celebrar o facto de ter feito anos e dirigi-me a uma discoteca que me tinham recomendado por estar na moda e por ser porreira, mas assim que cheguei à entrada e li "Festa Privada, consumo mínimo obrigatório 500€" deu-me vontade de sair de cima dos meus saltos e sambar à chapada na cara do gajo que se lembrou daquela estupidez. 500€??? Fosgace, roubar é com uma pistola!
Fora isso, as pessoas andavam pelas ruas, umas fantasiadas a preceito outras nem precisavam, onde o álcool era rei e senhor da estupidez. 

Conclusão: voltei para casa desiludida (puto da vida, vá) e a detestar ainda mais o carnaval.

Para quem gosta, divirtam-se. Com juízo, por favor.





quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

|| 29 anos

29 anos... Ainda ontem alterei a descrição ali do lado direito de 27 para 28!!



Fazer 29 anos é assustador, confesso. 
Desde muito nova que sempre imaginei que quando chegasse aos 30 a minha vida acabava, que a juventude passava, que já não havia mais nada para viver ou aprender. Obviamente que hoje acredito que não é bem assim, mas envelhecer continua a custar-me, continua a assustar-me. 
Não há nada pior do que a possibilidade de um dia esquecer-me de quem fui e de quem sou hoje, acho que é mais por isso que me custa tanto envelhecer.
E como é estar nos pré-trinta? É um misto.
Por um lado é bom porque me sinto mais madura, mais consciente de quem sou e do que quero, sou mais humana, mais ponderada, mais assertiva, apaixonei-me profundamente por mim mesma (o que era algo que eu achava que nunca iria acontecer).
Mas por outro lado...olho para trás e pergunto-me constantemente "o que raio andaste a fazer? não viveste quase nada!". 
Psicologicamente falando, estou numa crise, ahahahahah. Mas uma crise não tem que ser olhada de forma negativa, muito pelo contrário, uma crise é ter consciência daquilo que se fez ou não, e pensar sobre aquilo que se quer e o que fazer para se ter.
Alguém me disse um dia (alguém que eu amo muito!) "é ver nos teus olhos os 20 mas teres a maturidade dos 30". 

Que os 29 me conservem o sorriso doce de quem acredita que o melhor está sempre por vir, que me continuem a alimentar a esperança de que o mundo ainda é um lugar bonito para se viver.
Que os 29 me tragam a sabedoria de que o caminho faz-se andando e de que a felicidade é a certeza crescente de que dei sempre o melhor de mim.
Que os 29 me ensinem a honrar o compromisso deste amor próprio que hoje trago ao peito e a realização dos sonhos que trago no bolso. 
Que os 29 me tragam a coragem e a força para nunca me esquecer, por um segundo que seja, de onde vim e de quem quero ser.
Que os 29 me conservem a ideia de que o amor deverá ser sempre a causa primária de todas as coisas e a certeza de que no dia em que me esquecer disto perco-me para sempre.

Tchim tchim! 



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

|| O meu lado doceiro

Olá meus amores!
Tudo bem?
Por aqui está tudo a andar, ainda estou a adaptar-me ao novo semestre da faculdade, mas até agora estou a conseguir lidar com a pressão porque...acreditem, com as cadeiras que tenho para fazer é para pirar, mas vou conseguir!
Hoje, e a propósito de um fim de semana atribulado em termos de trabalho, vim falar-vos de um lado meu, daquilo que faço, profissionalmente falando.
Ora bem, ali do lado direito, na minha descrição, uma das coisas que lêem é que sou pasteleira. Pois é, sou pasteleira e cake designer (são coisas diferentes tá?).
O cake design entrou na minha vida por uma razão muito simples: eu sempre adorei os casamentos e os batizados por causa dos bolos ahahahahahah, é verdade, aqueles bolos com pasta de açúcar que eu achava que era tudo massapão. Quando fiz 23 anos eu não queria mais um bolo típico de pastelaria, queria algo diferente, queria um bolo com pasta de açúcar, como os bolos de casamento.
Nessa altura o cake design ainda não estava tão divulgado como nos dias de hoje, na altura eu não conhecia ninguém que fizesse esse tipo de bolos em casa. Vai daí, pesquisei formas de conseguir essa pasta e como poder fazer o meu próprio bolo, e assim foi.
A primeira loja com que tive contacto que vendia pastas de açúcar e todo o material necessário para decoração de bolos foi a loja "Isto faz-se", na altura tinham loja em Benfica. Acabei por conhecer a massapão, a pasta americana e a pasta de açúcar.
Eu fiz o meu bolo de aniversário que, acidentalmente, ficou com aspeto de chapéu tal era a inexperiência em deixar as bordas direitinhas e lisas, estava a começar...
A partir daí a minha curiosidade foi aumentando, fiz workshops de iniciação da decoração de bolos, técnicas de moldagem, etc, e daí até tirar o curso profissional de pasteleira foi uma questão de 2 anos.
E falo-vos disto só agora porquê, perguntam vocês? Porque esta semana faço anos e é sempre nostálgico lembrar-me daquele dia na cozinha, ávida de curiosidade, a fazer o meu primeiro bolo, de tantos os que já me passaram pelas mãos, de aniversário.

Entretanto, à medida que fui ganhando experiência, acabei por criar um logótipo e uma marca, criei página no facebook (e recentemente também no instagram) e aventurei-me por este mundo doce. Há quem me diga "esquece psicologia, dedica-te aos bolos, dar-te-á mais dinheiro do que aquele que algum dia psicologia te dará", mas psicologia e pastelaria são dois sonhos que podem muito bem andar de mão dada, e é isso que tenho tentado manter.
Vai daí, resolvi partilhar convosco alguns dos meus trabalhos, para que vocês possam conhecer um bocadinho daquilo que faço, e claro, se estiverem interessadas também vos deixo a página de facebook onde podem ver tudo o que já fiz e a minha evolução.



(símbolo pintado à mão!)





















(rosas comestíveis)


(sapato comestível)



Facebook: https://www.facebook.com/adocicarte/
Instagram: @adocicarte_ 

Passem por lá, acompanhem esta minha aventura. Quem sabe eu faça um sorteio de um bolo, brevemente?

Fiquem bem! Até ao próximo post!

Beijinho 





sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Fala sério || O meu filho gosta de coisas de menina, e agora?

Sempre quis ter uma filha, sempre.
Desde que me conheço como gente sempre fui a menina das bonecas e dos nenucos, de despir e vestir roupinhas de bebé, de fingir que amamentava [mal eu sabia que doía para cacete!], e o sonho de ser mãe de uma menina com quem eu pudesse também brincar surgiu muito cedo.
Mas se pensam que eu era só de barbies e nenucos enganem-se, brinquei eu muita vez com os carrinhos do meu irmão deitada no tapetão que a minha mãe tinha na sala de jantar e era simplesmente delicioso ver o meu irmão a improvisar garagens e rampas e depois brincarmos juntos com os carrinhos e motas dele.
Nunca fui criticada ou reprimida pelos meus pais, eram brincadeiras como outra qualquer, ao contrário dos que vinham de fora que tinham a mania de dizer "tu gostas dessas coisas? isso são coisas de meninos!". Confesso que me incomodava, como se eu estivesse a fazer alguma coisa errada, mas não fazia grande caso disso.
Mas um dia tornei-me mãe, e a visão é outra. Se por um lado não faço caso e sou até rebelde por ir contra às predefinições da sociedade, por outro lado revolta-me estes rótulos, estas críticas que surgem do nada como se fossem dogmas.

O meu Mateus tem 1 ano e meio e, desde sempre, é uma criança que não liga rigorosamente nada aos brinquedos dele, acreditem, eu já desisti de lhe comprar brinquedos. Mesmo aqueles que dão música é escusado, ele olha para aquilo com ar de "mas qué isto? se ainda fosse para comer!".
Quando ele começou a andar começou também a explorar os cantos à casa, e qual foram os primeiros brinquedos dele, perguntam vocês? Uma vassoura e uma pá. Sim, isso mesmo, a vassoura e a pá que eu uso nas limpezas.
Mas se no início era engraçado vê-lo de um lado para o outro com a vassoura, deixou de ter piada quando comecei a levar com ela na cabeça de cada vez que ele passava por mim. Vai daí, no natal passado, ofereci-lhe um carrinho que trazia uma pá, uma vassoura, uma esfregona e o balde.
Ainda hoje é o brinquedo preferido dele.
Mas quando as pessoas vêm cá a casa e o vêem a brincar com aquilo perguntam sempre "onde está a menina?". Como assim, onde está a menina?! E depois é que percebo a piada dinossáurica de que vassouras e pás são coisas de menina.

Se por um lado eu estou-me completamente a borrifar para aquilo que os outros possam achar sobre o facto de ter oferecido um brinquedo indicado para meninas ao meu filho que é menino, por outro, cresce-me uma revolta nas entranhas.

Mas afinal, quem é que estipulou a regra de que pás e vassouras são coisas de rapariga e que os carrinhos são só para os rapazes?! Juro que não entendo.
Às vezes sinto-me uma extra terrestre com uma mentalidade demasiada avançada para viver circunscrita pelos princípios tão limitados desta sociedade. Mas mais do que isso, assusta-me esta pressão com que os miúdos já nascem hoje em dia.
Se é menina vai ter de andar vestida de cor de rosa, cheia de folhos e lacinhos na cabeça, vai estar rodeada de barbies, bonecas e nenucos; se é menino vai ter de andar vestido com ganga dos pés à cabeça, papillon no pescoço, e só pode ter carrinhos e motas porque se tocar numa boneca que seja ainda há-de ser gay.
Porquê??
Porque é que as pessoas insistem em obrigar os miúdos a seguirem um padrão como se acreditassem que é isso que os fará dignos e bons, que é isso que fará deles pessoas? Que presságio é esse da distinção entre coisas de meninas e meninos, como se fosse trágico a mistura desses dois mundos?

Eu fui tão feliz a saltar e a sujar-me como um menino, a brincar com carrinhos e motas deitada no tapetão da sala de jantar, fui tão feliz a aprender anedotas com asneiras e dar peidos à gajo [sim, eu tinha um irmão prendado]. E não foi por isso que também não me interessei por [e brinquei muito com] barbies e nenucos!
Se viver nesses dois mundos e experimentar o que cada um oferece me ajudou ou me ensinou alguma coisa? Muito, bem mais do que alguém possa imaginar.
Ao viver no mundo de meninas e meninos pude experimentar coisas diferentes, objetos diferentes, mas mais do que isso, percebi que ambos os lados têm muito para ensinar: aprendi a ser seletiva e forte como os meninos, desenvolvi um espírito aventureiro e ávido de experimentar coisas novas, aprendi que a adrenalina também faz bem [e crescer], da mesma forma como me tornei muito sensível e resiliente, adquiri a sensibilidade, a calma e a paciência típica de meninas [vá, a paciência foi só um bocadinho].
Em mim habitam os dois mundos que o mundo inteiro insiste em dizer que são opostos, mas que eu acredito que são complementares. São esses dois mundos que fazem de mim uma mulher completa.

Quando os meus filhos nasceram vesti-lhes todas as cores [sim, mais pareciam arco-íris do que bebés], não houve azul, não houve paneleirices.
Houve amor, houve a promessa de lhes ensinar a serem bons e dignos de serem felizes, só.
Mas à medida que eles crescem o meu papel como mãe e educadora vai-se tornando mais exigente e muitas vezes é desgastante. Já houve vezes em que ouvi o meu Gabriel dizer "ai isso são coisas de menina!" e ter que respirar fundo 350 vezes para não parecer louca e gritar-lhe "isso cá em casa não existe, meu menino!", no fundo, ele não tem culpa que o mundo lá fora o pressione a comportar-se da forma que esperam que um menino se comporte. Sou eu que tenho de lutar contra isso e mostrar-lhe que ele pode ser aquilo que ele quiser, desde que respeite os outros e, sobretudo, desde que seja feliz.

Não aceito que limitem os meus filhos, que lhes digam que eles só serão felizes e pertencerão ao mundo se se comportarem de determinada de forma, a forma que meia dúzia de xoninhas decidiram que era a correta.
Não aceito que os meus filhos se limitem a viver de padrões, do politicamente correto, quero muito mais para eles, há um mundo de possibilidades lá fora para eles conhecerem, para explorarem.
Afinal, foi para isso que lhes dei asas ao nascerem, para voarem. E o que é um voo perfeito se não aquele em que se explora muito mais do que aquilo que a vista alcança?

Um menino gostar de coisas de menina e vice-versa só revela uma mente potencialmente consistente, e é disso que o mundo precisa: consistência. Já existe demasiada inconsistência e intolerância a fazer estragos lá fora.
E se um dia vir os meus filhos a transmitirem a mesma confiança, a mesma assertividade de que meninos e meninas são mundos fantásticos onde se pode viver sem preconceito e ideias predefinidas, então morro com a certeza de que, mais do que boa mãe, eu soube ama-los bem.