sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

|| Carta ao Pai Natal

Querido Pai Natal,

A três dias do natal, e numa altura em que estou cheia de coisas para fazer, guardei um tempo para te escrever.
Há 23 anos que te escrevo religiosamente, seja no papel ou na alma, e a maioria das vezes foi sempre para te pedir alguma coisa. Este ano resolvi não pedir nada, mas sim agradecer. Bom, talvez mais lá para o fim te peça uma coisa ou outra, coisinha pouca, prometo.
Quero agradecer pelo amor que recebi durante todo este ano, pelo homem maravilhoso que Deus me trouxe e que me tem feito acreditar que a felicidade se constrói todos os dias [da nossa vida], que o amor tudo conquista e ultrapassa até o obstáculo mais bicudo.
Quero agradecer pelas lágrimas que derramei, porque foram elas que me fizeram ganhar um olhar mais reto sobre a vida.
Quero agradecer também pelos medos que fui desbravando, porque foram eles que me ensinaram a ter a coragem para avançar e alcançar sempre o melhor do mundo.
Quero agradecer por a vida me mostrar que a família está onde o nosso coração é livre e feliz, que a família são aqueles que nos trazem ao peito, que nos respeitam mesmo que não entendam as nossas escolhas, e que nem sempre aqueles que nos deram a vida são aqueles que verdadeiramente nos amam.
Agradeço pela vida e pela saúde dos meus filhos, as duas pequenas luzes da minha vida, as duas únicas certezas que tenho de que tudo valeu a pena.
Agradeço por as dores nunca me terem cegado e feito esquecer de onde vim, e para onde quero ir.
Quero agradecer pelos sorrisos que fui capaz de partilhar com quem ainda está a aprender a sorrir, pelas lágrimas que amparei e enxuguei, pelos abraços que não adiei.
Agradecer por todas as oportunidades que aproveitei e por todas aquelas que soube desperdiçar, porque nem todas elas valiam a pena.
Quero agradecer pelas pessoas boas que se cruzaram comigo e não me deixaram desistir, uma vida não chega para lhes mostrar tamanha gratidão.
Foi um ano muito cheio, muito rico, muito importante. Eu diria, querido Pai Natal, que foi O ano da minha vida, o ano em que aprendi mais sobre mim do que sobre os outros, o ano em que ganhei coragem para escolher como ser feliz, o ano em que aprendi que o amor é muito mais do que só aceitar e esperar, o amor também é saber ir e deixar.
Ahhh... Querido Pai Natal...
Que o brilho dos meus olhos nunca se apague, que a força nunca me falte e se faltar que hajam sempre pessoas maravilhosas para me abraçar, porque um abraço será sempre o suficiente para me fazer voltar.
Que eu saiba ser sempre a menina que procura sempre a doçura no coração dos outros.
Que eu nunca perca a certeza de que são os sonhos que comandam a vida, e que essa capacidade de sonhar seja diretamente proporcional à vontade de fazer acontecer.
Que os meus filhos, esses diamantes por lapidar que Deus me confiou, possam crescer com uma mãe consciente, uma mãe capaz de os ouvir, capaz de os abraçar ao invés de julgar e criticar. Que eles se tornem a melhor extensão de mim, que se tornem homens dos quais o mundo [e eles próprios] se possa orgulhar.
Que a família onde nasci possa seguir o caminho que escolheu, feliz e consciente de que o arrependimento é um veneno sem antídoto.
Que este amor que trago ao peito e nos lábios, continue de mãos dadas comigo até sermos velhinhos.
Que amor e saúde nunca [nos] falte. Que o mundo possa ser um bocadinho melhor amanhã do que foi hoje e que eu lhe saiba [sempre] contribuir.

Desejo-te um Feliz Natal, a ti e a todos os que gostam de mim, que se interessam pelo que digo, que me escutam, que me respeitam, que me acompanham nesta loucura que é a vida, que estão atentos.
Àqueles que não gostam dá-lhes paciência.

Um abraço apertado e até para o ano, se Deus assim o quiser.




quinta-feira, 23 de novembro de 2017

|| Alguma coisa eu fiz bem

O meu filho Gabriel sabia que eu ia à televisão falar sobre um assunto sério, mas eu não lhe disse qual. Achei que era too much para uma criança de 8 anos, por lhe faltar o entendimento necessário para ouvir cada palavra que proferi naquela entrevista sobre o pós-parto dele.
Insistiu imenso para ver a entrevista na televisão, e, sem eu saber muito bem como, sentei-me com ele e expliquei-lhe que conversa foi aquela que tive com a Fátima Lopes:

- Filho, a mãe foi falar sobre aquilo que senti quando tu nasceste. A mãe não gostou logo de ti, por medo.
- De quê?
- Medo de não saber cuidar de ti, eu sentia-me muito cansada depois de nasceres, a mãe sentia-se sozinha, não tive muita ajuda, tinha que cuidar de ti e fazer tudo em casa, sozinha. Além disso, eu tinha medo de estar sozinha contigo, tinha medo de te pegar ao colo, de te deixar cair, eu sentia que não era boa mãe para ti e isso magoou-me, fez-me ficar muito triste. Eu chorava muito, andava sempre cansada e irritada, e não te pegava ao colo.
- Mãe, mas podias ter pegado em mim em cima da cama, se eu caísse não me magoava.
- Eu sei filho, e muitas vezes aconcheguei-te deitada na cama, mas doía-me tanto, tinha medo de sem querer sufocar-te, medo de te dar de mamar porque me doía muito as mamas. E a mãe foi à televisão falar sobre isso porque há outras mulheres que estão neste momento a sentir o mesmo, sentem-se tristes e com medo e é importante que elas saibam que não faz mal elas dizerem que têm medo, que ainda assim podem ficar bem e serem boas mães. Eu achava que tu nunca irias gostar de mim por eu ter demorado a perder o medo.
- Oh mãe... Eu sei que tu gostas de mim e tu és boa mãe. E podes ter a certeza absoluta que eu e o Mateus gostamos muito de ti.

E com isto, fiquei eu também com a certeza absoluta de que alguma coisa eu fiz bem durante estes anos. Eu sei que nunca vou recuperar o tempo que perdi enquanto estive doente e menos disponível para o meu filho, mas tenho a certeza de que tenho feito um bom trabalho, inclusive fazê-lo feliz.


Ps. Podem ver a entrevista na íntegra aqui.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

|| De mãe para mãe

Eu não sei quem tu és, tu também não sabes quem eu sou, mas só preciso de um minuto da tua atenção.
Respira fundo, não estás sozinha.
Deixa-me dizer-te que também já estive aí onde estás, as dúvidas, os medos, as angústias, foram as mesmas que me acompanharam durante anos. A má notícia é que isso nunca vai te vai passar, a boa é que podes ser mais forte que isso.
Eu sei que estás farta dos conselhos da mãe, da sogra, da tia, da vizinha, farta de dar ouvidos a quem não te consegue olhar por dentro, a quem não te alcança a alma de mulher ferida e de mãe frágil. Afinal todas elas criaram bem os seus filhos; são todos (im)perfeitos.
Quantas vezes te apeteceu gritar e expulsar essas vozes da tua vida? Da tua casa?
Quantas vezes sorriste cordialmente para não magoar a opinião alheia?
Quantas vezes te sentiste diminuída e sufocada?
Quantas vezes te fizeram sentir incapaz, como se fosses um perigo para o teu filho?

Eu tenho outra boa notícia para ti, podes livrar-te disso.
Não te vou dizer que vai ser fácil, que não haverão dias em que te irás questionar se foi a decisão certa, se não era preferível ter aquela gente toda na tua vida a opinar, ao invés de ficares sozinha por tua conta e risco e sentires-te abandonada.
Não te vou dizer que não haverão dias em que desejarás não ter nascido mulher e teres dúvidas de se ser mãe foi a tua melhor escolha na vida. Serão inúmeros.
Não te vou dizer que a tua luta contra uma sociedade cruel e seletiva não será inglória e desgastante, será bem mais dura do que aquilo que alguma vez possas imaginar.
Mas posso-te assegurar que para além dos obstáculos, existirá uma coisa da qual te poderás sempre orgulhar: ser livre.
Ahhh... Não existe nada mais reconfortante do que a liberdade, a liberdade de escolheres a mãe que queres ser, a liberdade de escolheres a mulher que queres conquistar.

A tua mãe diz que és má mãe se abdicares de momentos com os teus filhos em prol de uma carreira ou de umas férias sozinha com o teu marido/namorado ou de uma saída para a discoteca com as tuas amigas; a tua sogra dirá que é muito melhor mãe e que educaria melhor o teu filho do que tu, mesmo ela não tendo sido capaz de fazer grande coisa pelo teu marido; a tua vizinha comenta que és uma má mãe porque te ouve gritar com os teus filhos quando perdes a paciência e dizes que os vais embalar numa caixa e manda-los para a Bolívia só com bilhete de ida, a tua tia e as tuas primas dizem que és uma vergonha porque preferes investir em ti, na tua carreira e nos teus estudos por mero capricho, que o melhor que fazias era ir trabalhar das 8h às 19h como qualquer boa mãe sacrificada faz.
O teu pai diz que não és capaz de ser independente e que ser mãe solteira com filhos neste mundo é muito difícil, que o melhor que tens a fazer é engolir três ou quatro (ou milhares) sapos e manteres o casamento que felicidade nenhuma te traz para que nunca te falte nada, a ti e aos teus filhos.
E tu? Que mulher habita aí dentro? Que mãe queres tu ser? Que exemplo queres dar aos teus filhos, o da mãe e mulher submissa e conformada, ou da mãe e mulher independente que tem em si todos os sonhos do mundo?
Não me digas que é complicado, que irias perder muito, que irias causar discórdias e conflitos, que irias magoar os teus filhos e romper laços dos quais precisas ter para não perderes a noção de pertença. Isso são desculpas, desculpas que te roubam a oportunidade de seres, realmente, quem sempre quiseste ser.

Eu sei que é difícil. É. Muito. Não te vou mentir.
Tirar-te-á muitas noites de sono, trará muita revolta, irás questionar imensas vezes se terá sido a melhor opção, irás chorar muito pelo silêncio que fará ruído em ti, sentirás abandono, terás medos terríveis, sentirás que na verdade tu nunca importaste, duvidarás dos outros e até de se serás capaz sozinha, durante muito tempo andarás como se te faltasse um membro.
Mas nada dura para sempre, e a única coisa que te posso garantir é que é libertador.
É libertador dependeres só de ti, dependeres da tua vontade, dares voz ao teu querer. É libertador poderes pensar e decidir por ti, sem interferências, poderes escolher e assumir as consequências dessas escolhas. Mais do que isso, veres nos teus filhos a confirmação de que és muito mais e melhor do que aquilo que alguma vez te possam ter dito.
Seres mãe não significa que tenhas que perder a identidade, que tenhas que guardar os teus sonhos no bolso, não significa que tenhas de te colocar em último lugar em tudo. Às vezes colocares-te em primeiro lugar é colocares também os teus filhos no mesmo sítio, porque a felicidade dos teus filhos é proporcional à tua, e o facto de às vezes não estares presente não significa que não estejas do lado deles, muito pelo contrário, a tua ausência para viveres os teus sonhos também é uma forma de ama-los porque com isso mostras-lhes que devem respeitar-se e lutar pelos seus sonhos.
Anulares-te é o teu maior erro e nunca fará de ti melhor mãe, muito pelo contrário, fará de ti uma mulher frustrada e em piloto automático, além de que irás cometer o segundo pior erro da tua vida que é colocar, inconscientemente, o peso da expectativa em cima dos teus filhos em que eles terão que recompensar-te no futuro pela decisão de teres abdicado da tua vida por eles.

Mantém-te firme e confia, em ti e na vida. Há pessoas boas que Deus nos vai colocando no caminho, e o fardo vai sendo mais suportável, mais leve.
Digam o que disserem os outros, eles não te conhecem, eles não sabem quem tu és e nunca se preocuparão em conhecer. Eles não te vêem por dentro, só vêem aquilo que querem. E isso não é uma escolha tua, é uma escolha deles.
Digam o que disserem, é a opinião deles, e com a opinião dos outros, podes tu bem.

Faz da tua vida um orgulho e um exemplo para os teus filhos, mas sobretudo, sê, genuinamente, feliz.




sexta-feira, 27 de outubro de 2017

|| Ser a mãe que não tive

Muito se tem falado e discutido por esse mundo afora sobre o desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças, eu própria estou muito ligada ao estudo desses aspetos devido ao meu curso. Mas como diz aquela célebre frase cliché "uma coisa é a teoria, a prática são outros 500", porque além de psicóloga eu também sou mãe.
A psicologia ensina-me que não é viável nem sadio pegarmos na nossa experiência pessoal enquanto filhos e projeta-la nos nossos filhos como forma de "curarmos" as nossas mágoas e os nossos traumas. A minha consciência sempre me acautelou para evitar fazê-lo, mas eis que a minha experiência veio-me mostrar onde fica o meio.

Ontem à noite, enquanto ajudava o Gabriel a criar uma história/composição para a escola, eis que de repente o pai interpela-nos e comenta sobre uns rabiscos que o meu filho tinha feito numas folhas do caderno, uns corações com o nome dele e de uma miúda da turma dele. O pai perguntou, em tom de troça, se o filho já me tinha mostrado o que tinha rabiscado nas folhas, ao que o miúdo reagiu com um riso nervoso e disse ao pai "está calado!". O pai, insistindo, pegou no caderno dele para me vir mostrar os tais rabiscos, e o meu filho agarrou nas folhas e começou a amassa-las para me impedir de as ver. E criou-se ali um conflito, o pai a tentar evitar que o miúdo rasgasse as folhas porque tinham trabalhos das aulas, eu a tentar evitar o mesmo e ao mesmo tempo que o meu filho se acalmasse, de repente o miúdo levanta-se a chorar e com uma agressividade que lhe desconheço, e foi trancar-se no quarto dele.
Fiquei chocada. Naquele momento só me passou uma coisa pela cabeça, a de que tinha magoado o meu filho.
Levantei-me e fui ter com ele ao quarto. Tentei abrir a porta mas ele fazia força para mantê-la fechada, e quando forcei abri-la ele desatou aos gritos, super vermelho tal não era a raiva que estava a sentir. Tentei falar-lhe num tom de voz calmo, mas nada adiantava, o meu filho estava completamente descontrolado com a raiva que estava a sentir naquele momento.
Ele acabou por ceder e atirou-se para cima da cama dele a chorar, desesperadamente, e eu continuava a não conseguir chegar até ele. Até que me sentei na cama ao lado dele e abracei-o, esfregando-lhe as costas para ele se acalmar, sendo que as únicas palavras que me saiam da boca eram simplesmente "está tudo bem filho, tem calma".
Depois de ele conseguir acalmar-se e respirar fundo, eu perguntei:

- Podemos conversar? - e ele acenou a cabeça dizendo que não - Mas podes-me só ouvir? - ele acenou que sim.

- Desculpa se te magoei ou chateei. Se tu não queres que eu veja o que rabiscaste nas folhas eu não vejo. Mas só quero que saibas que não há mal nenhum no que tu fizeste, que é normal, eu na tua idade também gostei de um menino da minha turma e estava sempre a desenhar corações e flores e borboletas nas minhas folhas, ainda hoje o faço! A mãe sempre que dizia que não queria cá namoricos ou raparigas, a mãe estava simplesmente a brincar e a meter-se contigo, eu jamais impedirei que tu gostes de alguém, tu és livre filho, tu e o teu irmão. Eu gosto muito de vocês, só quero que vocês estejam bem. Não sintas vergonha ou medo de me contar ou mostrar o que quer que seja, eu estou aqui sempre para ti! Desculpas-me? - acenou que sim e eu abracei-o.

Foi ali, naquele exato momento, que eu curei um pedacinho da mágoa da menina que um dia eu fui. Foi ali, naquele preciso momento, que eu tive à minha frente o poder de escolha: se fazia da mesma forma que a minha mãe um dia me fez ou se fazia diferente.
Eu vi nas lágrimas do meu filho as minhas, a raiva que ele teve a liberdade de expor pra fora era a mesma raiva que eu fui tantas vezes obrigada a engolir com o risco de apanhar se não o fizesse, vi a mesma frustração de não entender o que se sente, a mesma vergonha, o mesmo medo. A diferença é que fui capaz de conter as emoções do meu filho, assumir o meu erro ao ter tentado invadir a privacidade dele movida pela minha curiosidade, ao invés de dizer aquilo que um dia ouvi "ainda mijas nas cuecas, não quero cá galderices", como se uma criança de 8 anos fosse desprovida de qualquer sentimento ou vontade mas que ainda assim fosse capaz de ser uma galdéria...
Há pouco tempo, numa conferência na minha faculdade em que o [enorme senhor!] Marcos Piangers falava sobre ser pai, ele disse que cada vez que abraçava as filhas e elas adormeciam abraçadas a ele, ele sentia que estava a abraçar o menino sem pai que um dia ele foi, que ao dar colo e abraços às filhas também dava colo ao menino carente que ele tinha sido. Ele dizia mesmo que é possível sim curar algumas das nossas mágoas enquanto filhos ao sermos pais e mães diferentes daqueles que tivemos. Na altura não quis acreditar muito nisso, afinal a psicologia ensina-me todos os dias o contrário. Mas a psicologia não explica tudo na vida e nem sempre devemos olhar para as coisas com a medida do 8 e do 80.
A minha mãe magoou-me muito enquanto filha, mas isso não quer dizer que eu tenha que ser igual a ela e seguir-lhe as pisadas. Por eu saber exatamente as dores profundas e permanentes que ela me causou, isso ainda me dá mais obrigação de fazer diferente enquanto mãe e não causar as mesmas dores nos meus filhos.
Há erros na vida que de tanto vermos os outros cometer, podemos escolher não os repetir, e isso dependerá sempre da nossa capacidade de nos lembrarmos de quem fomos um dia, do que nos fizeram e do que sentimos na altura. E só isso basta para fazer de nós melhores mães [e pais].

A maior qualidade de uma mãe [e de um pai] é ter a consciência de que se é imperfeito e que por isso mesmo também erramos, e pedir desculpa aos filhos é assumir perante eles não só essa noção [válida] de humanidade imperfeita mas também ter a coragem de assumir que se ultrapassou um limite que eles também os têm.
Ontem, pedir desculpa ao meu filho mostrou-me não só o quanto sou [humanamente] imperfeita, mas também me deu a certeza de que a coragem de o fazer, fez de mim uma mãe melhor.


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

|| Antes eu do que ela

Cada vez que lhe cai uma lágrima do rosto, é menos uma oportunidade tua de ver o brilho dela quando te sorri.
Cada vez que lhe viras as costas e te vais embora sem, pelo menos, tentar amenizar o estrago, é mais um dia que roubas à tua [vossa] felicidade.
Cada vez que lhe atiras os medos à cara, é mais um punhal certeiro que lhe espetas no peito.
Cada vez que lhe roubas a razão em prol da tua teimosia, é mais uma amostra de que o teu ego é mais importante do que ela.
Cada silencio teu, é mais um vazio que lhe causas.
Cada ausência tua nos gestos, é mais um metro que a afastas.
Sim, tens razao, ela não é perfeita.
É a mulher mais insegura com o melhor abraço do mundo.
É a mulher mais refilona e apaixonada que conheceste na vida.
É a mulher mais teimosa que te abre a porta sempre que te arrependes.
É a mulher mais pessimista e resiliente que alguma vês conhecerás.
É a mulher mais incoerente e sincera que poderás ter.
É a mulher mais orgulhosa capaz de largar tudo para estar do teu lado quando mais ninguém estiver.
Eu e tu sabemos que era tudo mais simples quando a tua paciência não falhava, quando os teus limites não eram testados, quando vivias só pra ti sem ter que dar satisfações ou partilhar a tua vida e o teu espaço, as tuas coisas. Era tudo mais simples quando chegavas a casa e executavas a rotina, quando te deitavas na cama e não tinhas que aturar ressonos e teres uma cama só pra ti, quando não tinhas que gerir familia e amigos em prol de uma só criatura.

Bom, há sempre tempo de voltar atrás.
Espero que te lembres de como era viver sem ela.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Viagens || Barcelona - 3ª parte

Olá meus amores!
Tudo bem por aqui?
Eu sei que esta 3ª parte da minha viagem a Barcelona estava difícil de sair mas... voltei à faculdade, e a ansiedade tomou conta de mim, e como se não bastasse, coisas muito difíceis e graves aconteceram nestes últimos dois meses. De facto, 2017 tem sido um ano de muita mudança, de muito desapego, de muita reciclagem, mas irei falar sobre isso com calma mais tarde, quando conseguir, mas por agora vamos falar de coisas boas, coisas que valem mesmo a pena pensar e recordar.

Praia de Badalona:






Ok, eu podia ter tirado mais fotos à praia mas... decidi aproveita-la visto que só tinha mesmo aquele dia. Mas se vocês pesquisarem no google encontram muitas fotos da praia de Badalona. Na minha opinião, a praia de Badalona tem os seus sim's e senãos. O que mais me surpreendeu foi o facto das pessoas se misturarem, na praia haviam nudistas no canto da praia, ao lado de pessoas que estavam vestidas de biquini e calções.
Eu só pensei "se fosse em Portugal isto seria impensável, as pessoas são demasiado púdicas para aceitarem as escolhas do outro", e na verdade, ali, naquela praia, eu vi pura descontração, famílias inteiras tranquilas da vida, independentemente de estarem vestidas ou despidas. 
O mar... bem, a água é super quente, obviamente, mas... estava cheia de ondas, e eu, esquisita como sou com praias, não gostei muito dessa parte mas pronto, não dispensei uns mergulhos. 

À noite acabamos por jantar num restaurante com vista para a praia. Comemos a bela da Paella e como sobremesa é o que se vê. 





Bairro gótico e Catedral:´


















Praça de Espanha:

E para terminar esta viagem magnífica, aproveitei para visitar a praça de Espanha com a fonte luminosa (que infelizmente não consegui vê-la ligada).










Hotel:

Ficámos num hotel bem perto do centro, mais propriamente na Cidade Universitária. Não era um hotel xpto, não tinha qualquer luxo, mas o quarto era confortável, tinha o essencial, era limpo, a cama enorme e super confortável, ar condicionado que nos soube pela vida, sinceramente gostei. Não vos posso falar sobre o pequeno-almoço que tinham porque custava os olhos da cara, mas sem dúvida é um hotel que recomendo a quem queira ficar bem situado para turistar. 
E o melhor de tudo é que fica mesmo ao lado da loja que deixa qualquer mulher que goste de produtos de beleza e maquilhagem maluca: Primor, pois é.




Foi, sem dúvida, a melhor viagem da minha vida. 
Foram só 4 dias, intensos, cansativos, não vi tudo o que eu queria ter visto, mas absorvi cada detalhe, a beleza, a grandeza de cada sítio em que pisei, e sobretudo, criei memórias maravilhosas. Beijei muito, abracei muito, entrelacei a mão com a dele vezes sem conta, sorri muito. E ser feliz é só isto, esteja onde estiver.

Barcelona, um dia eu volto. E se voltarmos juntos, melhor ainda. 

Beijinho para vocês








quinta-feira, 14 de setembro de 2017

|| (In)Suficiências

Deixem-me!
Deixem-me gritar a plenos pulmões esta angústia que me consome, deixem-me ferver, deixem-me vomitar devaneios e frases soltas sem sentido, deixem-me ser a louca que não sabe o que diz ou o que sente.
Não procurem sentido no que digo porque estas dores que trago não cabem em nenhuma boca, em nenhum dicionário.

Ah... o amor... Essa moeda de duas faces, esse usurpador da razão. O amor que me faz querer tanto e ao mesmo tempo me empurra para fora dele.
Nunca vou conseguir entender este dom do ser humano em gostar de ser mal amado, nunca.
Nunca vou conseguir entender essa insistência em amar bem quem não quer.
Insegurança. Dizem-me.
Culpa. Digo.
Não sei se culpo quem me devia ter ensinado a amar, ou se culpo os outros por não saberem ser amados.
Não sei se culpo a insuficiência de tudo aquilo que sou, ou se culpo a suficiência dos outros em ter quase nada.

O amor é uma coisa esquisita, é como um jogo de cartas, cada um dá as que quer e guarda pra si as melhores à espera de aparecer uma jogada melhor.
Fodasse para o jogo das cartas! Fodasse para esses jogos emocionais de merda!
O amor não é nada disso.

Já me questionei muitas vezes se fui parida por alguma marciana maluca com demasiados genes da bondade. Mas depois lembro-me que afinal eu sou perfeitamente normal; só fui mal amada.
E talvez todos os meus problemas residam aí mesmo, na criança negligenciada e magoada que insiste em viver numa espécie de simbiose e que me diz a toda a hora e a todo o instante "faças o que fizeres, dês o que deres, nunca será o suficiente para ficarem".

Alguém que me cale esta gaja, por favor?

Eu odeio-te, miúda. Odeio-te! Odeio-te por não te conseguir esventrar e enterrar de vez. Odeio-te por seres parte daquilo que sou. Odeio-te porque não te consigo abraçar nem proteger. Odeio-te por ver nos meus olhos a tua pureza e a tua carência.
Que se lixe essa pureza! Que se lixe essa pureza que faz de mim alguém especial, alguém capaz de abraçar com os dois braços e com o coração inteiro, alguém capaz de segurar a dor dos outros no colo, de se emocionar quando pensa no amor que lhe tenho.
A culpa deste sorriso fácil e que me impede de envelhecer é tua!
Merda...
É graças a ti que sonho em fazer bolos para toda a vida como se a felicidade das pessoas dependesse disso, de viajar num balão de ar quente e vê-lo aos meus pés a pedir-me para sermos felizes a vida toda, da Maria Clara e dos seus lacinhos rosa na cabeça, da família grande com 4 filhos, das viagens pelo mundo e das memórias retratadas na parede da sala, dos pacientes a quem eu devolverei a vida.
É graças a ti que ainda estou viva, é essa tua resiliência e bravura que me faz estar aqui hoje.
E odeio-te também por isso.

Mas hoje sou eu que preciso do teu abraço, de que me digas que um dia vai ficar tudo bem, de que sou uma romântica exagerada e que não há mal nenhum nisso. Hoje sou eu que preciso de que me limpes as lágrimas e me embales no teu colo, tão frágil mas tão forte, e que me prometas que um dia eu vou ser capaz de não depender do amor e da aceitação de ninguém por ser suficiente para mim mesma, sem me preocupar com as insuficiências dos outros.
Hoje sou eu que preciso que me prometas que estarás na dead line quando ela vier, e me mostres que tudo isto tem um propósito, que tudo isto valeu a pena, quanto mais não seja por ter feito alguém feliz pelo caminho.

Hoje preciso que sejas tu a resposta para eu não quebrar por dentro, que estejas lá para mim quando todos escolherem não estar, sobretudo, que segures na balança quando as incertezas me fustigarem e me relembres todos os dias que a escolha em não sucumbir será sempre minha.