sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Fala sério || O meu filho gosta de coisas de menina, e agora?

Sempre quis ter uma filha, sempre.
Desde que me conheço como gente sempre fui a menina das bonecas e dos nenucos, de despir e vestir roupinhas de bebé, de fingir que amamentava [mal eu sabia que doía para cacete!], e o sonho de ser mãe de uma menina com quem eu pudesse também brincar surgiu muito cedo.
Mas se pensam que eu era só de barbies e nenucos enganem-se, brinquei eu muita vez com os carrinhos do meu irmão deitada no tapetão que a minha mãe tinha na sala de jantar e era simplesmente delicioso ver o meu irmão a improvisar garagens e rampas e depois brincarmos juntos com os carrinhos e motas dele.
Nunca fui criticada ou reprimida pelos meus pais, eram brincadeiras como outra qualquer, ao contrário dos que vinham de fora que tinham a mania de dizer "tu gostas dessas coisas? isso são coisas de meninos!". Confesso que me incomodava, como se eu estivesse a fazer alguma coisa errada, mas não fazia grande caso disso.
Mas um dia tornei-me mãe, e a visão é outra. Se por um lado não faço caso e sou até rebelde por ir contra às predefinições da sociedade, por outro lado revolta-me estes rótulos, estas críticas que surgem do nada como se fossem dogmas.

O meu Mateus tem 1 ano e meio e, desde sempre, é uma criança que não liga rigorosamente nada aos brinquedos dele, acreditem, eu já desisti de lhe comprar brinquedos. Mesmo aqueles que dão música é escusado, ele olha para aquilo com ar de "mas qué isto? se ainda fosse para comer!".
Quando ele começou a andar começou também a explorar os cantos à casa, e qual foram os primeiros brinquedos dele, perguntam vocês? Uma vassoura e uma pá. Sim, isso mesmo, a vassoura e a pá que eu uso nas limpezas.
Mas se no início era engraçado vê-lo de um lado para o outro com a vassoura, deixou de ter piada quando comecei a levar com ela na cabeça de cada vez que ele passava por mim. Vai daí, no natal passado, ofereci-lhe um carrinho que trazia uma pá, uma vassoura, uma esfregona e o balde.
Ainda hoje é o brinquedo preferido dele.
Mas quando as pessoas vêm cá a casa e o vêem a brincar com aquilo perguntam sempre "onde está a menina?". Como assim, onde está a menina?! E depois é que percebo a piada dinossáurica de que vassouras e pás são coisas de menina.

Se por um lado eu estou-me completamente a borrifar para aquilo que os outros possam achar sobre o facto de ter oferecido um brinquedo indicado para meninas ao meu filho que é menino, por outro, cresce-me uma revolta nas entranhas.

Mas afinal, quem é que estipulou a regra de que pás e vassouras são coisas de rapariga e que os carrinhos são só para os rapazes?! Juro que não entendo.
Às vezes sinto-me uma extra terrestre com uma mentalidade demasiada avançada para viver circunscrita pelos princípios tão limitados desta sociedade. Mas mais do que isso, assusta-me esta pressão com que os miúdos já nascem hoje em dia.
Se é menina vai ter de andar vestida de cor de rosa, cheia de folhos e lacinhos na cabeça, vai estar rodeada de barbies, bonecas e nenucos; se é menino vai ter de andar vestido com ganga dos pés à cabeça, papillon no pescoço, e só pode ter carrinhos e motas porque se tocar numa boneca que seja ainda há-de ser gay.
Porquê??
Porque é que as pessoas insistem em obrigar os miúdos a seguirem um padrão como se acreditassem que é isso que os fará dignos e bons, que é isso que fará deles pessoas? Que presságio é esse da distinção entre coisas de meninas e meninos, como se fosse trágico a mistura desses dois mundos?

Eu fui tão feliz a saltar e a sujar-me como um menino, a brincar com carrinhos e motas deitada no tapetão da sala de jantar, fui tão feliz a aprender anedotas com asneiras e dar peidos à gajo [sim, eu tinha um irmão prendado]. E não foi por isso que também não me interessei por [e brinquei muito com] barbies e nenucos!
Se viver nesses dois mundos e experimentar o que cada um oferece me ajudou ou me ensinou alguma coisa? Muito, bem mais do que alguém possa imaginar.
Ao viver no mundo de meninas e meninos pude experimentar coisas diferentes, objetos diferentes, mas mais do que isso, percebi que ambos os lados têm muito para ensinar: aprendi a ser seletiva e forte como os meninos, desenvolvi um espírito aventureiro e ávido de experimentar coisas novas, aprendi que a adrenalina também faz bem [e crescer], da mesma forma como me tornei muito sensível e resiliente, adquiri a sensibilidade, a calma e a paciência típica de meninas [vá, a paciência foi só um bocadinho].
Em mim habitam os dois mundos que o mundo inteiro insiste em dizer que são opostos, mas que eu acredito que são complementares. São esses dois mundos que fazem de mim uma mulher completa.

Quando os meus filhos nasceram vesti-lhes todas as cores [sim, mais pareciam arco-íris do que bebés], não houve azul, não houve paneleirices.
Houve amor, houve a promessa de lhes ensinar a serem bons e dignos de serem felizes, só.
Mas à medida que eles crescem o meu papel como mãe e educadora vai-se tornando mais exigente e muitas vezes é desgastante. Já houve vezes em que ouvi o meu Gabriel dizer "ai isso são coisas de menina!" e ter que respirar fundo 350 vezes para não parecer louca e gritar-lhe "isso cá em casa não existe, meu menino!", no fundo, ele não tem culpa que o mundo lá fora o pressione a comportar-se da forma que esperam que um menino se comporte. Sou eu que tenho de lutar contra isso e mostrar-lhe que ele pode ser aquilo que ele quiser, desde que respeite os outros e, sobretudo, desde que seja feliz.

Não aceito que limitem os meus filhos, que lhes digam que eles só serão felizes e pertencerão ao mundo se se comportarem de determinada de forma, a forma que meia dúzia de xoninhas decidiram que era a correta.
Não aceito que os meus filhos se limitem a viver de padrões, do politicamente correto, quero muito mais para eles, há um mundo de possibilidades lá fora para eles conhecerem, para explorarem.
Afinal, foi para isso que lhes dei asas ao nascerem, para voarem. E o que é um voo perfeito se não aquele em que se explora muito mais do que aquilo que a vista alcança?

Um menino gostar de coisas de menina e vice-versa só revela uma mente potencialmente consistente, e é disso que o mundo precisa: consistência. Já existe demasiada inconsistência e intolerância a fazer estragos lá fora.
E se um dia vir os meus filhos a transmitirem a mesma confiança, a mesma assertividade de que meninos e meninas são mundos fantásticos onde se pode viver sem preconceito e ideias predefinidas, então morro com a certeza de que, mais do que boa mãe, eu soube ama-los bem.







4 comentários:

  1. Querida, só mereces palmas! Ainda não sou mãe, mas quando for espero conseguir ser metade mãe do que tu és! <3

    THE PINK ELEPHANT SHOE // INSTAGRAM //

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  2. Com a minha experiência de vida que me dão os meus 70 anos, aplaudo de pé. O mundo precisa de mais mães assim.
    Parabéns.
    Um abraço e bom fim de semana

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  3. Muito bem escrito! Em primeiro lugar porque é um grande preconceito ainda dizer que limpar a casa é uma tarefa para meninas. Acho que já passámos essa fase. E depois, é como dizes, não há coisas só de meninos e só de meninas. As crianças podem brincar e aprender com tantos estímulos diferentes...
    Beijinho!

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  4. Meu filho brinca com o que quer, seja 'de menino' ou 'de menina'
    Dia desses o irmão do meu marido ficou rindo pq ao invés do Arthur estar assistindo um desenho de carros, ele preferiu assistir My Little Pony...
    N vi graça, é desenho e ele gosta, qual o problema?

    Não nos deixemos sucumbir ao sexismo, nossas crianças vão ver, brincar, viver, vão ser crianças, e isso é o que importa!!!

    Bjoooos
    muitospedacinhosdemim.blogspot.com.br

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