terça-feira, 14 de março de 2017

Fala sério || Antes dos meus filhos estou eu

Eu nunca fui muito de falar sobre figuras públicas por aqui, não por algum motivo em especial, simplesmente ainda não tinha surgido oportunidade. Mas hoje inicio a rubrica "Fala Sério" trazendo o nome do Gustavo Santos à baila.
Toda a gente conhece o Gustavo Santos, uns adoram-no, outros odeiam-no, a vida não está para agradar a gregos e a troianos. Pessoalmente, gosto imenso do Gustavo, ele é dos meus, diz as coisas com a maior naturalidade e frontalidade do mundo, e o melhor de tudo é que só come quem quer.
Hoje, ao passar os olhos pelo meu feed do Facebook, deparo-me com uma pequena entrevista (aqui) do Gustavo onde ele fala sobre a paternidade e onde diz umas coisas bastante certeiras (escandalosas na visão de muitos) sobre o ser-se mãe. Claro está que tive que espreitar os comentários porque eu já sabia que as indignadas iriam soltar a franga, e não me enganei.

A dada altura o Gustavo diz algo como "Foi o meu cão que me ensinou a ser pai."
Duas aluadas soltaram logo a sua franga irrequieta. Um cão a ensinar a ser pai? Essa agora! Os cães têm quatro patas, nascem com os olhos fechados, babam-se e cheiram mal da boca, não falam e têm uma inteligência do tamanho de uma ervilha! Como é que alguém pode achar-se pai de uma criatura deste tipo? Jamais!
Não sei porque é que por cá não se faz a mesma coisa que os chinocas fazem aos cães lá no pardieiro deles! Era ver muita gentinha a correr para os restaurantes à procura de sushi de cão para experimentar.
O Sr. Marcelo que reformule a lei de que os animais são seres com sentimentos, tal como os seres humanos. Andamos todos equivocados. Deus me livre ser equiparada a um cão!

Mas a melhor parte nem foi esta, a melhor parte, para mim, foi quando o (grande) Gustavo Santos disse "O filho jamais poderá ser a coisa mais importante da vida de uma mãe.
Uuiii, o que foi ele dizer...
De várias frangas (desfrangalhadas), houve uma que me saltou à vista quando iniciou a destilação da sua estupidez crónica com a boca do "ai o cão é que te ensinou a ser pai, ó valha-me deus...". A partir desse comentário foi um desfrangalhanço do caroço, ao ponto da Sra. dizer que "isto de humanizar animais e animalizar pessoas é fabuloso". 
Será que a Sra. é Jeová? Fiquei com essa impressão.
Mas depois de ler mais uns quantos comentários dela percebi, nitidamente, que é só estúpida e deve achar que na árvore genealógica da vida o homem é um ser celestial e que não pode ser igualado a animal nenhum (fico a pensar que os meus ossos podem ser pedaços de céu e as minhas mamas de tão fofas que são, ao invés de chicha, são duas nuvens que Deus me deu).

Ai Gustavo Gustavo... És um incompreendido. Mas se um dia, porventura, te deparares aqui com o meu pardieirozito e leres isto, quero que saibas que, não só te entendo, como subscrevo o que disseste.
Eu tenho dois filhos lindos, maravilhosos, cheios de saúde, e sou muito grata à vida por ser a mãe deles. Mas eles não são a coisa mais importante da minha vida.
Eles são importantes sim, na medida em que sou a mãe deles e é da minha responsabilidade amá-los, educa-los, prepara-los para o mundo, incentiva-los a fazerem a diferença e deixarem a sua marca, os meus filhos são pedaços de mim que serão perpetuados no tempo e o meu objetivo é que eles sejam a extensão do melhor de mim.
Os filhos são pérolas preciosas na vida de qualquer mãe, mas não são pérolas para usar no pescoço. Os filhos são a sementeira do amor no mundo, porque a verdade é esta: os filhos não são nossos, são do (e para o) mundo.

Um filho que seja a coisa mais importante da vida da sua mãe é um filho perdido, é um ser condenado aos caprichos, vontades e desejos de uma mulher sem amor próprio que se esqueceu (ou nem existiu!) de si, que o diga o meu ex-marido.
"Homens e mulheres há muitos, os filhos ficam para sempre", foi outro dos comentários que mais li sobre a entrevista do Gustavo. Quem dera às mães que perderam os seus filhos que assim fosse... Filhos são para sempre, mas isso não implica que fiquem para sempre do nosso lado.

Amar não equivale possuir.
Eu não sou dona dos meus filhos. Sou responsável sim por lhes mostrar caminhos possíveis, mas a escolha será sempre deles, porque a minha limitação permite-me aceitar que eu não controlo tudo.
Um dia eu sei que eles vão seguir caminho, vão desbravar sonhos, vão conquistar o seu lugar no mundo, e eu… eu serei a mesma mulher, cheia de vida e com sonhos na algibeira, com um coração cheio e braços abertos para os acolher sempre que eles precisarem de pousar, sempre que eles precisarem de que eu lhes aguce a memória e os relembre que há um mundo à espera do amor deles, o mesmo amor com que foram feitos.

Quantos divórcios, quantas mágoas, quantos traumas, quantas chatices não seriam evitadas se as mães parassem de desistir de viver para verem o mundo pelos olhos dos filhos. É como se com o nascer de um filho a vida se reduzisse a um tamanho somente visível por uns binóculos, como se um filho nascesse com a sentença registada de ter de alimentar o sentido da existência da sua mãe.

Viver para (e pelos) filhos dá sempre merda, não importa o prazo.
Quantos filhos ficaram parados, presos no tempo porque as mães não os deixaram experimentar, não os deixaram voar, testar os seus próprios limites. 
Quantos filhos não cresceram para lá dos horizontes das suas mães.
Quantos filhos limitados e dependentes de um amor materno andam por aí a cobrar esse mesmo amor (obsessivo) às suas namoradas e esposas. 

Antes dos meus filhos estou (e estarei sempre) eu porque se eu não estiver bem é impossível proporcionar bem-estar e equilíbrio aos meus filhos, é impossível fazê-los felizes se eu não for feliz também. Ninguém consegue dar o que não tem, basicamente, é como construir uma casa em cima de areia. 

Que Deus conserve aquilo que sou e me permita deixar ser tudo aquilo que os meus filhos quiserem ser, inclusive livres.



11 comentários:

  1. Estou prestes a ser mamã e adorei o que aqui foi dito 😊

    Beijinhos

    http://22primaveraseumprincipe.blogspot.pt/

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  2. Gostei de ler. E de ver que nem toda a juventude é tonta. Parabéns.
    Um abraço

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  3. Não simpatizo nada com o Gustava Santos, o homem quer ser um pioneiro mas só lhe sai asneira. Mas percebo que sim, o mais importante temos de ser sempre nós :)

    THE PINK ELEPHANT SHOE // INSTAGRAM //

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    1. Eu por acaso gosto dele, ele diz coisas bastante acertadas, mas entendo o que dizes, ele parece querer ser o dono da verdade e às vezes transmite essa ideia.

      Beijinho grande

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  4. Tb sinto que ele é um incompreendido, talvez seja pela forma como diz as coisas, mas eu concordo pelo menos nesse tema, não percebo a polemica XD
    Bjs*

    Anita On Blog

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    1. Ele é frontal e as pessoas hoje em dia não estão para isso! O que mais admiro nele é que ainda assim continua a dizer as coisas, sem medo.

      beijinho grande

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  5. eu acho é que vai aqui uma grande confusão e incompreensão de termos. uma coisa é os filhos serem a "coisa" mais importante da nossa vida, outra totalmente diferente é os filhos serem a única coisa na nossa vida. acho muito dificil de compreender como é que uma mãe não acha os filhos mais importantes do que ela própria. eu sou mãe, de duas meninas, que são o mais importante da minha vida, além disso, tenho outros aspetos que também são importantes para mim, o meu curso, o meu trabalho, a dança, a minha liberdade, etc, ao estarem a dizer que os filhos não são a coisa mais importante estão basicamente a dizer que se, por algum motivo tiverem de abdicar de algo, eles são uma opção. isso é tão infeliz. eu sou importante para mim, claro que sim, amo-me, mas se eu precisar de tirar de mim para dar a elas, eu tiro sem pensar, isso é o que significa ser mais importante. e além disso, é isso que significa ser mãe.
    Gostava deste blog, depois disto acho que me vou retirar.

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    1. Leonor, entendo que nem todos podemos ter o mesmo ponto de vista, tal como o Gustavo (e apesar de eu concordar a 100% com ele), eu também tenho o meu ponto de vista tal como tu tens o teu e pelos vistos é diferente. É aceitável, não posso julgar, são maneiras de ver e estar na vida.
      Os meus filhos não são opção para mim, opção foi eu ter escolhido tê-los, mas isso não pode nem faz de mim prisioneira da maternidade. Um dia eles vão crescer, vão viver a vida deles, daí a importância de a mãe nunca esquecer-se de si e dos seus sonhos porque um dia...o ninho fica vazio. Afinal, que melhor exemplo para dar aos nossos filhos do que lhes mostrar que primeiro estamos sempre nós e a nossa liberdade, e só quando nos amamos e respeitamos é que aprendemos a amar, a respeitar os outros e a valorizar a liberdade que temos.
      Agora, acho que a confusão que estás a fazer não faz sentido, obviamente que se os meus filhos precisarem eu coloco-os em primeiro lugar, por algum motivo fiquei presa a um casamento durante alguns anos só para não traumatizar o meu filho mais velho e poder dar-lhe toda uma estabilidade emocional...
      Está tudo interligado Leonor e as coisas não são uma equação matemática simples, e aí está o segredo: saber priorizar-nos e dar prioridade aos outros (nomeadamente filhos) nas alturas certas.

      Lamento se não correspondi às tuas expectativas, mas eu mantenho-me sempre fiel à minha verdade, e só faz sentido ser assim, até mesmo aqui no blog.

      Volta sempre que te apetecer! Fica bem

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    2. Mas foi o que eu disse, uma coisa é os filhos serem o mais importante a nossa vida, outra completamente diferente é os filhos serem a ÚNICA coisa na nossa vida. É claro que não podem ser. É claro que temos de nos preocupar connosco, que temos de nos amar, que temos de nos respeitar. Mas, para mim, os filhos não podem não ser o mais importante. Porque se podemos não priorizar os filhos em certas alturas como referiste, os filhos são quase como os amigos, quando precisam são a nossa prioridade, quando não precisam deixam de ser. E como eu disse antes, não acho que isso seja correcto. Também como disse no meu primeiro comentário, tenho duas filhas que amo acima de tudo, e que são o mais importante da minha vida, mas isso não me impede de me amar, de me respeitar e de fazer coisas por mim. Mas tal como disseste, são pontos de vista.

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